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Família é sintonia, dizem os poetas urbanos, sobreviventes do inferno, para aqueles de mentes tristes, porém fascinadas com as ilusões carnavalescas de um país que luta por seus times de futebol, mas não luta pela sua dignidade.
Ferréz.
buscando apresentar as futilidades e vanidades que passam por baixo de nossas peles sujas de oxigênio.
sexta-feira, 30 de março de 2007
quinta-feira, 29 de março de 2007
Testamento
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O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece
Tive uns dinheiros – perdi–os...
Tive amores – esqueci–os
Mas no maior desespero.
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado.
No meu olhar fatigado,
foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
não tive um filho de meu.
Um filho!...
Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino,
para arquiteto meu pai.
Foi – se um dia a saúde...
Fiz–me arquiteto?
Não pude!
Sou poeta menor,
perdoai!
Não faço versos de guerra
não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicidadarei de bom grado a vida
na luta em que não lutei!
-
Manuel Bandeira.
Pra encerrar o mês de poemas de terceiros. (e que terceiros!)
O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece
Tive uns dinheiros – perdi–os...
Tive amores – esqueci–os
Mas no maior desespero.
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado.
No meu olhar fatigado,
foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
não tive um filho de meu.
Um filho!...
Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino,
para arquiteto meu pai.
Foi – se um dia a saúde...
Fiz–me arquiteto?
Não pude!
Sou poeta menor,
perdoai!
Não faço versos de guerra
não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicidadarei de bom grado a vida
na luta em que não lutei!
-
Manuel Bandeira.
Pra encerrar o mês de poemas de terceiros. (e que terceiros!)
terça-feira, 27 de março de 2007
José Saramago
-
O desbarato mais absurdo não é o dos bens deconsumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miudezas se tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força, para que a força esmague a fraqueza.
-
José Saramago.
O desbarato mais absurdo não é o dos bens deconsumo, mas o da humanidade: milhões e milhões de seres humanos nasceram para ser trucidados pela história, milhões e milhões de pessoas que não possuíam mais do que as suas simples vidas. De pouco ela lhes iria servir, mas nunca faltou quem de tais miudezas se tivesse sabido aproveitar. A fraqueza alimenta a força, para que a força esmague a fraqueza.
-
José Saramago.
domingo, 25 de março de 2007
Ézio Déda
-
Eu pressuponho que escrevo por sobrevivência.
O texto me exaure até a asfixia plena.
É sempre um óbito necessário.
-
Ézio Déda.
Eu pressuponho que escrevo por sobrevivência.
O texto me exaure até a asfixia plena.
É sempre um óbito necessário.
-
Ézio Déda.
quarta-feira, 21 de março de 2007
sexta-feira, 16 de março de 2007
Demônio
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E se um dia um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:" Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!
Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e sequência. E, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.
Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio?
Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?
Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça?
Vê bem, se disseres que sim, estarás apenas piorando a eternidade.
-
Nietzsche.
E se um dia um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse:" Esta vida, assim como a vives e sempre viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes, não haverá nela nada de novo!
Cada dor, cada pensamento, tudo que há de pequeno em tua vida há de retornar. Tudo, na mesma ordem e sequência. E, do mesmo modo, esse instante e eu próprio: o demônio. O eterno relógio da existência reiniciará outra vez a contagem do seu tempo, e do tempo das tuas desgraças.
Não te lançarias ao chão rangendo os dentes e amaldiçoando o demônio?
Não, não. Responderias medrosamente que nunca te disseram algo mais divino. Diga, nunca te disseram algo mais divino?
Mentirias que queres para sempre a tua própria desgraça?
Vê bem, se disseres que sim, estarás apenas piorando a eternidade.
-
Nietzsche.
quinta-feira, 15 de março de 2007
Leia
-
Leia... Leia!
O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia!
Leia em casa, no ônibus, no metrô.
Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos.
-
Paul Valéry .
Leia... Leia!
O homem que trabalha, que minimamente ganha a vida, que leia!
Leia em casa, no ônibus, no metrô.
Leia naquela hora que os meios de comunicação devoram contando casos de polícia, bobagens incoerentes, mexericos e fatos muito menores, cuja confusão e abundância parecem feitas para aturdir e simplificar grosseiramente os espíritos.
-
Paul Valéry .
quarta-feira, 14 de março de 2007
Maiakovski
-
Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.
E o gosto do intermediário é bastante intermédio, medíocre.
Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"sou homem de outra têmpera! perdão",
e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".
Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.
Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres.
Também eles, podem compreender a arte.
Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.
-
Maiakovski.
Entre o autor e o público, posta-se o intermediário.
E o gosto do intermediário é bastante intermédio, medíocre.
Medianeiros médios pululam nos meios, onde, galopando, teu pensamento chega.
Um deles considera tudo sonolento:
"sou homem de outra têmpera! perdão",
e repete um só refrão:
"O público não compreenderá".
Camponês, só viu um faz tempo, antes da guerra.
Operários, deu com dois, uma vez, numa ponte, vendo subir a água da enchente.
Mas diz que os conhece como a palma da mão.
Que sabe tudo o que querem!
Aqui vai meu aparte: chega de chuchotar bobagens para os pobres.
Também eles, podem compreender a arte.
Logo, que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.
-
Maiakovski.
terça-feira, 13 de março de 2007
Alma humana
-
A alma humana é um manicômio de caricaturas.
Se uma alma pudesse revelar-se com verdade
E nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas, definidas
Seria, como dizem, da verdade o poço.
Mas um poço sinistro, cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser.
Ranho da subjetividade.
Eis a alma.
-
Fernando Pessoa .
A alma humana é um manicômio de caricaturas.
Se uma alma pudesse revelar-se com verdade
E nem houvesse um pudor mais profundo que todas as vergonhas conhecidas, definidas
Seria, como dizem, da verdade o poço.
Mas um poço sinistro, cheio de ecos vagos, habitado por vidas ignóbeis, viscosidades sem vida, lesmas sem ser.
Ranho da subjetividade.
Eis a alma.
-
Fernando Pessoa .
domingo, 11 de março de 2007
O escritor
-
O escritor vive.
Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis.
Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia. Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons (o mundo mais estranho das artes), o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade.
-
Jorge Luis Borges .
O escritor vive.
Ninguém é escritor das oito ao meio-dia e das duas às seis.
Quem é poeta é poeta sempre, e se vê continuamente assaltado pela poesia. Assim como o pintor é assediado pelas cores e pelas formas, assim como o músico se sente procurado pelo estranho mundo dos sons (o mundo mais estranho das artes), o escritor deve pensar que tudo é argila, com que fará da miserável circunstância de nossa vida alguma coisa que possa aspirar à eternidade.
-
Jorge Luis Borges .
sexta-feira, 9 de março de 2007
Prossigamos
-
Toda via prossigamos!
Seja de que maneira for!
Saiamos a campo para a luta, lutemos, então!
Não vimos já como a crença removeu montanhas?
Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
Essa cortina que nos aculta isto e aquilo, é preciso arrancá-la!
-
Bertolt Brecht .
Toda via prossigamos!
Seja de que maneira for!
Saiamos a campo para a luta, lutemos, então!
Não vimos já como a crença removeu montanhas?
Não basta então termos descoberto que alguma coisa está sendo ocultada?
Essa cortina que nos aculta isto e aquilo, é preciso arrancá-la!
-
Bertolt Brecht .
quinta-feira, 8 de março de 2007
A Poesia
-
A poesia está guardada nas palavras
É tudo que eu sei
Meu fardo é não entender quase tudo
Sobre o nada eu tenho profundidades
Eu não cultivo conexões com o real
Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro
Poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil
Fiquei emocionado e chorei
Sou fraco para elogios.
-
Manoel de Barros
A poesia está guardada nas palavras
É tudo que eu sei
Meu fardo é não entender quase tudo
Sobre o nada eu tenho profundidades
Eu não cultivo conexões com o real
Para mim poderoso não é aquele que descobre o ouro
Poderoso pra mim é aquele que descobre as insignificâncias do mundo e as nossas
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil
Fiquei emocionado e chorei
Sou fraco para elogios.
-
Manoel de Barros
quarta-feira, 7 de março de 2007
A Multiplicidade do real
-
Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
-
Paulo Leminski.
Que existe mais, senão afirmar a multiplicidade do real?
A igual probabilidade dos eventos impossíveis?
A eterna troca de tudo em tudo?
A única realidade absoluta?
Seres se traduzem.
Tudo pode ser metáfora de alguma outra coisa ou de coisa alguma.
Tudo irremediavelmente metamorfose!
-
Paulo Leminski.
terça-feira, 6 de março de 2007
A perfeição
-
O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
-
Clarice Lispector.
O que me tranqüiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.
-
Clarice Lispector.
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